4. ECONOMIA 19.9.12

1. O EURO BRINDA FRAU MERKEL
2. UM CHOQUE NAS TARIFAS
3. AVANAR PARA NO ESTAGNAR

1. O EURO BRINDA FRAU MERKEL
A Alemanha se rende ao inevitvel: como potncia do continente, ter de liderar o resgate da moeda nica e debelar a crise. Os mercados aplaudem.
GIULIANO GUANDALINI

     A Europa parece ter recuperado o bom-senso e a sobriedade. Nos ltimos dias, uma srie de decises e iniciativas de seus lderes aplacou as ansiedades dos investidores (e de seus credores) internacionais, trazendo a esperana de que a crise de confiana sobre os pases do euro tenha finalmente entrado no comeo de seu fim. Na quarta-feira, a corte constitucional alem considerou legal o Mecanismo Europeu de Estabilidade, fundo de resgate para as economias em apuros na regio. Uma petio, com 37.000 assinaturas, questionava a constitucionalidade do financiamento alemo desse fundo. Mas os juzes deram um veredicto favorvel. Novos aportes de recursos, no entanto, devero ser avalizados pelo Parlamento. O mecanismo dispor de 700 bilhes de euros, dos quais 190 bilhes sero bancados pela Alemanha. Sem a contribuio de seu maior patrocinador, o fundo no teria capital suficiente para aplacar a crise financeira. Por isso, to logo a corte proferiu sua deciso, a chanceler Angela Merkel festejou: No samos da crise, mas demos um grande passo.  um grande dia para a Alemanha e para a Europa. Demos um sinal veemente de nossa responsabilidade como a maior economia da Europa.
     Ainda na semana passada, a Comisso Europeia lanou as bases para unificar a superviso do sistema financeiro, um primeiro passo rumo  integrao bancria. Hoje, apesar de a moeda ser comum e de a autoridade monetria estar a cargo do Banco Central Europeu (BCE), boa parte da fiscalizao e da regulamentao  feita localmente, em cada pas, ocasionando assimetrias dentro do bloco. Fundamental tambm para a recuperao da confiana no euro foi a determinao do BCE de comprar ttulos pblicos dos pases que enfrentam dificuldades para se financiar com investidores privados. Estamos preparados para fazer aquilo que for necessrio para preservar o euro, havia afirmado Mario Draghi, presidente do BCE, no fim de julho. Acreditem em mim, ser suficiente. A resoluo do italiano, com o respaldo de Merkel, deu resultado: o euro recuperou valor e as bolsas subiram aos nveis mais altos em quatro anos. Mais importante, diminuiu a percepo de risco em relao aos chamados pases da periferia do euro. At poucas semanas atrs, a taxa de juros cobrada pelos investidores para comprar ttulos da Espanha e da Itlia superava 8%, um ndice considerado insustentvel para as finanas desses pases e bem acima da taxa cobrada da Alemanha (abaixo de 2%), embora os pases compartilhem da mesma moeda. Agora os juros dos ttulos espanhis e italianos, assim como os de Portugal e da Irlanda, esto em trajetria de queda. A taxa para a Itlia caiu para menos de 5%. A Espanha, que tinha dificuldade para vender seus ttulos, poder talvez seguir de p com as prprias pernas e dever escapar da necessidade de recorrer ao Fundo Monetrio Internacional (FMI). Contribuiu para a melhora dos humores, tambm, a deciso do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de manter a sua taxa de juros prxima a zero at meados de 2015 e seguir aumentando a liquidez de dlares nos mercados mundiais.
      verdade que espanhis e portugueses ainda sofrem com uma recesso profunda, para no falar da Grcia. No h sinais de recuperao na atividade, e as taxas de desemprego seguem exasperadoras. Mas as especulaes sobre o fim do euro cessaram. Os boatos e cenrios catastrofistas vicejaram enquanto a Alemanha impunha barreiras ao socorro de seus parceiros no euro. No fim, prevaleceu o pragmatismo  uma qualidade to alem quanto o puritanismo. A derrocada da moeda nica teria efeitos inimaginveis sobre o sistema financeiro e os mercados. A Alemanha, como credora desses pases, sofreria perdas considerveis. Alm disso, praticamente metade das exportaes alems tem a Europa como destino. A sada foi ceder e agir para evitar um prolongamento da crise, ainda que exigindo, como garantia, um duro plano de ajuste financeiro na periferia do euro.
     Muitos economistas seguem questionando a viabilidade do euro. Mas a criao da moeda nica, para alm de questes econmicas, foi motivada por razes polticas. Seu futuro, portanto, depender da determinao poltica de seus lderes de superar as barreiras atuais e as que surgiro  frente.


2. UM CHOQUE NAS TARIFAS
O governo apresenta um plano para reduzir o preo da energia, mas a interferncia nos contratos assusta.

     O preo da eletricidade  um dos maiores paradoxos brasileiros. As empresas e as famlias pagam uma das contas de luz mais caras do mundo, mesmo que a energia tenha sido gerada a partir da fonte mais barata existente  a gua. A discrepncia se explica, essencialmente, pelos tributos, responsveis por metade do valor das faturas. O governo, em mais uma iniciativa positiva no sentido de reduzir o chamado custo Brasil, detalhou na semana passada um plano que, se funcionar, dever representar uma queda de 16,2%, em mdia, nas tarifas residenciais e de at 28% para as empresas. Sero extintos dois de uma dezena de encargos, alm da diminuio do peso de um terceiro. Deixa de existir a Reserva Global de Reverso (RGR), criada para incentivar investimentos em iluminao pblica, entre outras funes. Tambm ser eliminada a Conta de Consumo de Combustveis (CCC), cujo objetivo era subsidiar a eletricidade na Regio Norte. A Conta de Desenvolvimento Energtico (CDE), que serve para estimular fontes alternativas, promover a universalizao do servio e subsidiar os consumidores de baixa renda, por sua vez, ser reduzida em 75%. A supresso desses encargos ganhou aprovao unnime. Alm de onerosos (uma arrecadao de 3,3 bilhes de reais ao ano), seus recursos nem sempre iam para os destinos originais.
     Boa parte da reduo nos preos, porm, dever ocorrer pela renegociao de contratos com as empresas de gerao, transmisso e distribuio de energia. Com isso, o governo espera forar essas companhias a diminuir os valores atuais. A lgica  que, como os investimentos feitos j foram amortizados, os preos podero cair. A reao dos investidores foi instantnea  e negativa. A perspectiva de queda nos lucros levou a uma forte desvalorizao nas aes de empresas do setor. Mesmo companhias que tinham concesses vlidas at 2015 e 2017 tero de renegociar os contratos at o fim do ano, sob os termos determinados pelo governo. A reduo na tarifa  louvvel, mas falta clareza a respeito de como ela ocorrer, afirma Alexei Vivan, presidente da Associao Brasileira de Companhias de Energia Eltrica. Existe uma insegurana dos investidores com relao  rentabilidade das empresas.
     O governo evitou o caminho difcil, o de promover uma queda efetiva nos impostos. Saram alguns encargos, mas a maior parte dos tributos ficou. Estreitar as margens das empresas poder ter a consequncia adversa de restringir os investimentos no aprimoramento dos servios. Alm disso, o chamado mercado livre de energia, responsvel pelo abastecimento de grandes consumidores, dever ficar de fora da queda nos preos. Diz Walter Fres, da CMU Energia: Esse mercado representa entre 20% e 30% do consumo. Essas empresas precisam ser tambm beneficiadas para manter a competitividade. 
ANA LUIZA DALTRO

CURTO-CIRCUITO NO MERCADO
O plano do governo de forar a reduo no preo da eletricidade derrubou o valor das empresas do setor

Reduo na tarifa (Queda mdia esperada, a partir de 2013)
Residncias: 16,2%
Indstrias: 19,7% a 28%

Preo das aes (Variao em setembro)
CTEEP: 32,4%
Cesp: 32,2%
Cemig: 24,3%
AES Tiet: 15,2%
MPX Energia: 13,1%
Fonte: Economtica


3. AVANAR PARA NO ESTAGNAR
O frum da revista EXAME mostra a necessidade de mudana para manter o Brasil competitivo mundialmente.

     A infraestrutura, a educao e o combate  pobreza so o desafio fundamental para o Brasil nos prximos anos. Foi o que afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega, na ltima sexta-feira em So Paulo, durante a edio deste ano do EXAME Frum, que reuniu grandes empresrios e economistas do pas. Tivemos crescimento no comrcio exterior, do nvel de atividade, o PIB praticamente duplicou de ritmo, mas temos um sistema ferrovirio e rodovirio ainda atrasado, disse Mantega. A educao  outro grande desafio. Um atraso de trinta anos no  eliminado em cinco, afirmou. O frum contou com a participao de dois palestrantes americanos, o prmio Nobel Paul Krugman, de Princeton, e Paul Romer, da Universidade de Nova York. Para Krugman, o Brasil fez avanos notveis. Mas ele ressaltou: Se eu dissesse onde  preciso investir, seria nas pessoas, nos jovens. Muitos esto excludos. Romer concordou: A questo macroeconmica mais importante que o Brasil tem  elevar a eficcia de seu sistema escolar
     Para Krugman, o aumento nos fluxos de capitais para o Brasil e a consequente valorizao do real tiveram um forte efeito sobre a economia. A indstria perdeu competitividade. O pas no estava preparado, disse. O ministro Mantega reiterou a deciso do governo de no deixar o real valorizar-se excessivamente. Vamos continuar tomando medidas sobre o cmbio at os demais pases adotarem um regime cambial flexvel, afirmou, referindo-se aos pases asiticos  leia-se China  que mantm controle artificial do cmbio.
     Em seu discurso, Roberto Civita, presidente do Conselho de Administrao do Grupo Abril, que edita VEJA e EXAME, ressaltou a necessidade de o governo e o setor privado atuarem de maneira complementar. Disse Civita: O papel regulador do estado  indispensvel ao bom funcionamento de uma economia de mercado. Regular de forma competente  quase uma arte, que executada com a necessria parcimnia e sensibilidade gera efeitos altamente positivos para as empresas, os mercados e a sociedade. Um exemplo, disse Civita,  a disposio do poder pblico em buscar, juntamente com a iniciativa privada, solues para alguns dos maiores gargalos competitivos do Brasil

